Caralho, onde eu estou? Me olhava no espelho, incrédula comigo mesma, eu tinha que parar com isso, a minha vida já era uma bosta, transar com desconhecidos não ajudava em nada.
-Bom dia lindinha... A menina me chamou de que? Porra, dá vontade de nem responder.
-Bom dia, viu meus óculos por aí? Digo secamente.
-Não, mas vou procurar pra você, vamos tomar café?
Vou até a sala, aonde encontro meus óculos, jogados embaixo da mesinha de centro, era um apartamento gigantesco, essa mina tem dinheiro, pensei. Haviam muitos quadros pendurados, mas dentre todos, um me chamou atenção:
-Você gostou lindinha? É o meu preferido, uma réplica perfeita da obra "A morte de Ofélia", do pintor Sir John Everett Millais, muitos artistas ficaram admirados pela personagem Ofélia em Hamlet, a moça foi retratada diversas vezes, Shakespeare ficaria orgulhoso. Ela disse sorrindo.
A garota com quem passei a noite era muito bonita, confesso, mas eu só conseguia olhar para o quadro, fixou-se em minha mente, Ofélia parecia ter morrido de uma mal terrível, algo relacionado ao coração, talvez, de tanto amar, me coloquei no lugar dela, eu queria morrer assim.
-Preciso ir, digo enquanto roubo uma maçã da fruteira.
Saio rapidamente pela porta e escuto os passos dela atrás de mim, aperto o botão do elevador que, pra minha sorte, estava parado no mesmo andar, a porta se abre e ela só tem tempo de dizer três palavras:
-Jany... Me liga. Ela sorri, a porta se fecha, sinto um alívio, eu nunca vou ligar pra essa garota, não sei nem seu nome, imagina o número de telefone.
-Amigo, bom dia, que bairro é esse?
Ele sorri, animado, -Aqui é o bairro do Limão, moça.
Ufa! Eu sei voltar pra casa.
No caminho, só consigo pensar nela, como ela pode não se importar comigo? Nunca vi uma alma tão desalmada! Penso, o trocadilho é ruim, eu dou risada de mim mesma.
Abro a porta com preguiça de voltar pra mesmice de casa, mas que merda é essa? Minha casa está arrumada, pratos limpos, o chão brilhando, um cheiro de limpeza que eu não sentia a dez meses, ela se importa, ela realmente se importa comigo, eu não consigo tirar o sorriso bobo da cara.
Vou verificar os livros na estante. ela levou todos, vou para o quarto e verifico o guarda-roupas, não sobrou nenhum vestido dela, enfim, encontro um bilhete em cima da cama:
"Obrigada por cuidar dos meus livros, em troca arrumei a zona que estava isso aqui, seja feliz Jany. Alma."

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